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Psicoterapia integrativa para corações e mentes

Ainda que tenhamos avançando muito do ponto de vista tecnológico, com benefícios inegáveis para a nossa sociedade, é preocupante o quanto temos nos tornado afastados da Natureza na mesma proporção, perdendo cada vez mais de vista nossas conexões sensíveis com ela e a interdependência disso com a falta de uma escuta para o nosso interior.

Exemplo disso, é o fenômeno da urbanização crescente de nossas cidades que cada vez sofrem mais com poluição, engarrafamentos, violência, desemprego, desigualdade social, locais inadequados para moradia, saúde precária, educação desvalorizada, falta de infra-estrutura, tragédias climáticas, etc.

Esse modo de vida antinatural é, em certo sentido, sintoma de uma ideologia “sombria” disfuncional de progresso sem limites, de um sistema insano que coloca o lucro acima da vida; a imagem e as aparências como mais importantes que o conteúdo, a essência. A ciência e até mesmo a religião, a serviço do materialismo. O dinheiro e o poder, a frente de tudo o mais, numa total inversão de valores!

Dentro dessa mesma lógica às avessas e a fim de manter esse atual estado das coisas, temos sido condicionados a reprimir ou suprimir nossas emoções e sentimentos ao invés de sermos encorajados a aprender a lidar como o nosso afeto e a educarmos a nossa consciência para encarar essas questões desenvolvendo maior sensibilidade, consciência e discernimento. Acabamos assim, cheios de conflitos ocultos, de vazios e carências que nos fazem buscar toda uma série de atividades compensatórias e paliativas que a sociedade nos propagandeia e apresenta como soluções “normativas”, mas que, na verdade, apenas nos tornam dependentes, compulsivos, alheios, embotados, viciados ou distraídos, excessivamente voltados para “fora” de nós mesmos, do sentido de nossa existência e de nossas reais potencialidades de realização interior e de transformação.

Diante disso, qual seria o papel da psicoterapia para o desenvolvimento da consciência e de saberes mais sensíveis em meio a uma cultura extremamente imediatista, niilista e de espetáculo? Onde haveria espaço para o ‘sagrado’ numa sociedade mergulhada num oceano de distrações, futilidades e no culto a celebridades? Como podemos nos tornar mais sensíveis e menos alienados diante do entorpecimento e passividade da maioria? Como não nos deixarmos embrutecer pela banalização do mal, da violência, da corrupção que nos é propagandeada diariamente por uma mídia que nitidamente vem sendo utilizada para manipulação das massas em direção ao consumismo irrefletido e em prol do monopólio político e corporativo de elites dominantes?

Bem, penso que, enquanto estivermos excessivamente distraídos, indiferentes ou anestesiados e ávidos apenas por prazeres fugazes e imediatos, sem pensarmos nas conseqüências do nosso comportamento e de nossas ações para o mundo a nossa volta, mais facilmente continuaremos a ser manipulados e condicionados. Aqueles que detêm o poder sabem muito bem disso, e é por essa razão que os profissionais que trabalham para nos distrair, entreter e divertir estão entre os mais altamente remunerados em nossa sociedade, em detrimento e discrepância àqueles que são pagos para nos educar, como os professores, por exemplo.

Aliás, além de desvalorizada, nossa educação também vem sendo bastante desvirtuada pelas mesmas forças que visam manter-se no poder. Assim ela tem sido propositalmente orientada basicamente para doutrinar e preparar os estudantes para passar em exames e medir sua capacidade de repetir ou reproduzir conhecimentos ou ideologias de ordem, numa educação meramente racional, intelectual, de hemisfério esquerdo cerebral.

Infelizmente, ainda não temos uma educação para as emoções e a mente profunda nas escolas. O que levou Claudio Naranjo, psiquiatra chileno, a denúnciar que “o mundo está numa crise profunda porque não temos uma educação para a consciência. Temos uma educação que de certo modo está roubando das pessoas a sua consciência, o seu tempo e a sua vida.”  Assim, não temos sido educados para valorizar ou lidar mais conscientemente com as nossas emoções e sentimentos, muito menos com o nosso mundo interior, com o nosso psiquismo, o inconsciente e suas vicissitudes. Temos sido ensinados até a mesmo “a amar errado”, como afirma o psicólogo Antônio Veiga. Temos muitos conceitos de amor em nossas cabeças, mas pouco amor sendo sentido de fato em nossos corações; pois negar as emoções e o sentir é negar o amor. Ou como enfatiza o biólogo chileno Humberto Maturana, para quem o amor é a emoção central na biologia humana:

“O que nos faz seres humanos é nossa maneira particular de viver junto como seres sociais na linguagem. E nessa maneira particular de coexistência que nos faz humanos o amor é o fenômeno biológico que nos permite escapar da alienação anti-social criada por nós através de nossas racionalizações. É através da razão que justificamos a tirania, a destruição da natureza ou o abuso sobre outros seres humanos na defesa de nossas propriedades materiais ou ideológicas.” (in Ontologia da Realidade, pg.184)

De modo geral ainda há muita inconsciência a respeito do papel decisivo que desempenham as emoções em nossas memórias, crenças, motivações, discursos e fazeres. “É a emoção que nos leva a ação e não a razão”, diz o ilustre biólogo Humberto Maturana. E as emoções e sentimentos são, conforme o neurocientista Antônio Damásio, “a base ou o substrato mais próximo a aquilo que podemos chamar de alma, espírito”. Precisamos resgatar nossa capacidade de sentir, de pensar com o coração, aprendendo a lidar com a energia das emoções ao invés de sermos dominados inconscientemente por elas enquanto posamos de intelectuais e politicamente corretos; ou seja, integrar a razão ao sentir, rumo a um ‘saber sensível’. E isso passa pelo reconhecimento da importância de dimensões mais sutis, transpessoais e sensíveis em nossas vidas, daquilo que de forma generalizada chamamos de Espiritualidade.

A prática de uma espiritualidade sadia depende do trabalho com as emoções e os sentimentos. Afinal, que tipo de espiritualidade adviria de pessoas com o afeto embotado, cheias de defesas racionalistas e bloqueios emocionais não trabalhados? Ora, o sentir nos conecta ao espiritual genuíno, ao religare autêntico, que é o verdadeiro sentido de religiosidade, nos remetendo a espiritualidade. E isso implica num desenvolvimento conjunto de inteligências sensíveis ou saberes.

Só que ninguém aprende ou desenvolve saberes, sozinho. Aprendemos e crescemos nos encontros, como seres que aprendem através das relações. Não saberíamos sequer falar se não fosse pelo contato com os outros em nossa infância. É assim que vão se dando os nossos mais variados tipos de aprendizados na vida, ou seja, através das relações. No que diz respeito ao nosso aprendizado psicológico, a lógica natural é a mesma. No entanto, vivemos essa cultura alienante e desumanizante referida antes e que torna as pessoas demasiado servis ao sistema de modo autômato e irrefletido a tal ponto, que todos são incentivados, criados, educados e manipulados para dissociarem-se do seu ser interior, perdendo a conexão consigo mesmos, com a sua própria natureza íntima, e até mesmo com a possibilidade de pensarem mais por si próprios, passando a ser “pensados”, ou seja, a reproduzirem sistemas dominantes de crenças de outrem e até a defendê-los, mesmo que em prejuízo de si mesmos.

Devido a essa inversão de valores voltados para fora, muitos não investem em interioridade e acreditam numa ilusão de auto-suficiência em que precisar de ajuda poderia ser um indicativo de incapacidade em lidar com os próprios problemas, de fraqueza ou debilidade e até mesmo de anormalidade ou loucura e não uma necessidade simplesmente natural de aprendizado, aperfeiçoamento ou desenvolvimento de habilidades, competências e estratégias comportamentais mais eficazes no trato com os seus próprios problemas, conflitos, crises, limitações, dificuldades e até mesmo questões existenciais.

E é essa contradição entre o externo, que é o sistema social vigente, e o interno, que é o sujeito e a sua essência, em suas múltiplas facetas mediadas pela mente, pela linguagem e pelo sentir, que vai ser vivida, em maior ou menor grau pelo indivíduo, como sofrimento.

A psicoterapia enquanto espaço de manejo dessas questões e reflexão sobre as nossas relações com o sistema social, não se resume ao tratamento dos sintomas já manifestos, nem é algo para loucos, como, não raro, absurda e preconceituosamente se ouve falar! Aliás, diga-se de passagem, os piores loucos acreditam não precisar de tratamento! O que deveria servir de alerta aos neuróticos ou “normóticos” por aí, pois há quem diga que “é preciso muita terapia para lidar com os que acham que não precisam de terapia”. E o normótico seria aquele que se orgulha de se achar “normal” sem perceber que não é sinal de saúde ser adaptado a uma sociedade doente. 

Portanto, nem sempre as pessoas conseguem fazer uma auto-observação e avaliação ou diagnóstico mais honesto de si mesmas do ponto de vista psicológico, principalmente, pela influência de manipulações histórico-culturais e suas relações com o inconsciente. De modo profundo, com o nosso lado sombra. E de modo superficial, também por certa tendência ao comodismo e da mente racional em se autoenganar a fim de manter a zona de conforto. Indicativo disso é que tanto o verbo mentir, quanto o substantivo mente, vem de Mens (do latim) que significa “inteligência, razão, juízo”. Por isso costumo afirmar que a mente racional ou o intelecto, pode nos mentir, fazendo-nos inclusive repetir padrões comportamentais delusórios ou estereotipados. Já o sentimento, seja positivo ou negativo, mostra a verdade. Por isso, o sofrimento pode nos despertar, pois é um chamado a nossa verdade íntima da qual podemos estar desviados.

A prática da psicoterapia é, portanto, um atender a esse chamado, favorecendo a nossa saúde integral: física, psicológica e espiritual, em que a nossa psique é a mediadora de todas essas dimensões em nossas vidas! Enfim, é buscar cuidar de si. Pois, quem se cuida, exercita o amor. E quem se ama, cresce, evolui, permitindo-se amar e ser amado, melhorando assim, a sua autoestima, o seu autoconhecimento, a sua espiritualidade e a sua qualidade de vida.

Psicoterapia é, então, trabalho. E nesse trabalho o sujeito pode esforçar-se em busca da abertura a talentos antes bloqueados ou no aprimoramento de competências, como a liderança, a criatividade, a capacidade de posicionar-se, ou dar limites e estabelecer combinações de convívio mais saudáveis com seus pares. Ou ainda, na descoberta de novas habilidades para fins de sua evolução pessoal ou profissional. Ela pode nos ajudar ainda a desenvolver qualidades interpessoais como a capacidade de empatia, a fim de aprendermos a colocar-nos mais no lugar do outro; ou auxiliar-nos a melhorar a nossa habilidade de comunicação e expressão afetiva; ou também, para ampliarmos a nossa “resiliência”, que é a capacidade de crescermos enfrentando as dificuldades com dignidade.

Entrementes, reforço não haver nenhuma restrição em recorrer à psicoterapia em qualquer ponto da vida em que o indivíduo sinta a necessidade de se engajar em tal processo. Essa necessidade não precisa estar atrelada a sintomas, doenças ou psicopatologias tão somente, mas a um desejo sincero e honesto de se melhorar como pessoa. Pois, a psicoterapia é também uma forma de educação da consciência; podendo promover educação da mente, educação das emoções, educação em valores. Enfim, educação sensível ao que é essencial na vida e que nos ajuda a nos tornar mais éticos, íntegros e autoconscientes.

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