Artigos


A ingenuidade perversa – De Abraão a Oppenheimer sob domínio do cérebro reptiliano

A ingenuidade perversa que denominei também como “Complexo de Abraão” é caracterizada pela incapacidade da pessoa de enxergar o mal, a recusa em algum nível para admitir a presença da maldade e da corrupção a sua própria volta, no seu próprio grupo de interesse e até em si mesma, tendendo a projetar o mal sempre nos outros.

Em termos junguianos seria a negação sistemática do próprio lado sombrio da personalidade humana. Jung já afirmava em referência a essa parte sombria do inconsciente que as pessoas fariam de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar reconhecer e enfrentar a sua própria sombra.

Esse transtorno pode muito bem ser ilustrado por aquela passagem bíblica que narra o desatino de Abraão oferecendo o próprio filho em sacrifício a uma ideia pervertida de deus, a um rito profano, sanguinário e subvertido de religiosidade e que não distingue o bem do mal, nem o lado luz do lado sombra e os confunde.

O mesmo mecanismo pode ocorrer também na ciência, como na subordinação complacente do físico J. Robert Oppenheimer em colocar tanto o seu conhecimento científico quanto da nova física em ação para liderar seus colegas no Projeto Manhattan e usar a energia nuclear em seu poderio mais aterrador, sombrio e destrutivo, e que acabou culminando nas milhares de mortes de Hiroshima e Nagasaki, fazendo com que seu nome entrasse para a história como o “pai da bomba atômica”, ou pior, o “destruidor de mundos”. O pretexto supostamente “nobre” da vez era forçar a rendição de um já combalido e isolado Japão na Segunda Guerra que ainda resistia mesmo após a derrota dos alemães nazistas, optando por dizimar num bombardeio atômico milhares de seus civis, como se esse fosse o único modo de persuação…

Esse fenômeno de ingenuidade perversa leva sempre a algum tipo de “autotranscedência patológica” e decorre do fato de que a imensa maioria das pessoas ignora que está partindo de uma base de programação negativa, invertida, num sistema de esquecimento ou demência automatizada para defender-se de seu lado sombrio. A sua casa interna está dividida e fragmentada. Há uma cisão entre seu lado racional e emocional. E o demarcador neurobiológico disso é que seu cérebro primitivo não se comunica bem com seu neocórtex. Nesse estado a pessoa facilmente coloca a sua fé ou a sua razão a serviço do seu cérebro visceral, reptiliano.

Aqueles mais presos aos circuitos neurais do seu cérebro reptiliano têm a necessidade de dominar ou de impor a sua norma ou a de seu grupo entender a vida. Nada pode estar fora dos padrões estabelecidos ou a serem implementados. Nesse sistema operacional é comum o uso de pretextos manipulatórios de causas sociais para coerção e uso da força de bando, operando numa consciência de rebanho em que o outro precisa ser igual, servil, cópia ou é um inimigo, uma ameaça.

Operando mais no arquicórtex, presas ao circuito reptiliano instintivo e mamífero emocional de seus cérebros, as pessoas tornam-se um perigo ambulante para si mesmas e seu entorno devido ao uso perverso e primitivo de seu neocórtex humano racional que é facilmente rebaixado pela falta de articulação dessas instâncias, as tornando suscetíveis a todo tipo de comportamentos subversivos, desordens, manipulações e transtornos. Todo o fanatismo humano aqui se explica, bem como seu autoritarismo ou servidão, os sistemas de controle social, rituais de abuso e regimes totalitários de todos os tipos.

O desvario humano há muito tempo já foi mapeado. Mas a maioria continua acreditando que o mal é sempre o outro. Não queremos nos ver. Preferimos ser ingênuos esquecidos de nosso potencial humano, desalinhados do nosso próprio coração e desmemoriados de nossas cizânias, das nossas sombras, suas masmorras e devastações. E qualquer “falsa luz” vem sendo suficiente para nos ludibriar. Pois, quem não vê a própria sombra não reconhece seus disfarces e se desvia do próprio caminho. Mesmo os mais despertos ainda não estão regenerados e podem ser persuadidos pelas armadilhas da falsa luz ou de falsas causas sociais, tendo em vista que o traço mais típico do mal totalitário é a dissimulaçao do bem comum.

A mente humana opera de forma dual, dialética e o segredo de qualquer sistema de controle é oferecer a ajuda dos dois lados em vários graus de densidade, numa complexa rede subtil de armadilhas, na sombra e na falsa luz que por trás das aparências é a sombra disfarçada. A falsa luz oferece suavizações que visam o embotamento afetivo, ou seja, salvamentos e alívios curativos sem conscientização que estimulam a falta de autonomia, a embromação e a irresponsabilidade existencial. Oferece também gratificações substitutas e tentações materialísticas que levem as pessoas a negligenciar suas turbulências internas. Se a religião e a ideologia não servirem para apaziguar alguém na espera de uma salvação vinda de fora, então a Nova Era o fará.

Logo, o que diz o falso anjo? “Eu te darei fortuna e saúde, mas ao ruir o teu castelo e apodrecer a tua carne, o que restar será meu.”

Assim, historicamente a razão vem sendo utilizada como criada obediente do cérebro primitivo ou arquicórtex. E é por isso que assistimos adultos infantilizados praticando ou defendendo as piores aberrações, figurantes teleguiados que reagem de acordo com uma programação induzida, manipulatória, apelativa e falsificada.

Daí o genocídio e a escravidão dos regimes autoritários do passado até o presente estarem sempre sendo praticados em nome de algum tipo de “consciência social” ou o que uma elite “iluminada” arbitre e divulgue como tal. Até porque essa ingenuidade em reconhecer o mal em si e só enxergar “boas intenções” convém também para acomodar o ser num estágio primitivo e infantil de seu desenvolvimento psíquico, ético e moral. E que o leva sempre a colocar sua fé ou sua razão em favor de seu cérebro primitivo, recaindo numa falta de coordenação entre as suas faculdades emocionais e racionais, ou numa “gap” entre seu cérebro antigo e o neocórtex, e que devido a complexos de desvalia não tratados, impele sempre a alguma forma invertida de busca patológica ou submissão a um protetorado opressor.

Mas e o que poderia estar bloqueando a comunicação entre a razão e a emoção em nosso ser, ou entre o arquicortex e o neocórtex no nosso cérebro? O que mantém essa contradição humana, todos seus avessos, insanidades e vulnerabilidades à modelagem comportamental por terceiros?

E a minha resposta após conduzir centenas de regressões é que nossos bloqueios decorrem de “traumas profundos”. A não ser que você chegue a “resoluções integrativas” com essa presença de passado velada no seu inconsciente, você não tem como desfazer suas rupturas e bloqueios, prendendo-se a um looping de repetição onde até pode mudar o cenário e os personagens a sua volta, mas os repertórios de fundo permanecem, repetem-se, gerando padrões de mal-estar, ignorância e sofrimento.

Aqui é quando o passado mostra que ainda não passou e não vai adiantar você ficar repetindo mantras de viver o presente caindo na asneira de confundir o tempo físico com o tempo psicológico, pois eles se diferem e nos coabitam, enquanto memória inconsciente a condicionar nosso comportamento, a ser regenerado.

Deixe seu comentário


2 Comentários to “A ingenuidade perversa – De Abraão a Oppenheimer sob domínio do cérebro reptiliano”

  1. Maya Matos disse:

    Esclarecimentos verdadeiros! Amém 🙏🏽

Deixe um comentário