A autoconsciência como superação do orgulho revestido pelo ativismo social
“O homem de hoje, que se volta para o ideal coletivo, faz de seu coração um antro de criminosos.” (C.G. Jung)
O orgulho ordinariamente pode se camuflar de causa social a fim de disfarçar os aspectos repulsivos da pessoa, como o seu desejo de poder ou de ditar regras e expropriar os outros, ou ainda, a sua necessidade de controle sobre a vida alheia e até de falsear contrapesos para as suas desvalias mais íntimas.
Investindo na boa imagem social de si, a pessoa vai revestindo as suas tendências egoístas, ressentidas e totalitárias, tornando-se demagogicamente enrustida por alegadas “nobres intenções”.
“O orgulho a terra come”, diz o ditado popular. Ao que podemos acrescer, até mesmo aquele orgulho exaltado às custas dos fracos e oprimidos, e que leva muitos a serem engolidos pelos abismos ideológicos, ao encontro dos reinos de lama, nos umbrais das interioridades renegadas em favor da desfaçatez social, da lacração social, das falsificações de bem comum.
Os ativistas sociais, comumente, se acham representantes do povo e pretensos porta-vozes das necessidades e carências alheias, fantasiam-se de pessoas-bandeira, encontram um filão ou são atraídos por conveniências psicológicas a um determinado grupo de identidade ou causa social, e então, recorrem a um poder externo, geralmente coercitivo ou usurpador, a fim de tentar sanar seus dilemas internos, emocionais e existenciais, que acreditam poder resolver voltados apenas para fora, impondo seus interesses aos demais, sem precisar olhar para a etiologia desses problemas, e de preferência, sem precisar se ater aos avessos de si, as suas próprias contradições íntimas, muito menos, a profundidade desses temas, ou a sua dimensão de interioridade e suas causas e origens.
Em outros termos, os ativistas sociais geralmente não querem encarar a sua própria sombra e complexos, embora sejam ligeiros em apontar as sombras alheias, se queixar delas e se fazer de vítimas. Querem direitos, mas não querem saber de deveres. Não percebem com isso terem se corrompido desde o principio, pois a sua motivação não era nobre, mas auto enganosa, portanto, fingida, dissimulada, revestida pelo orgulho e movida pelos seus recalques não reconhecidos. Logo, sendo facilmente manipuláveis em sua empáfia, acabam patrocinados por aqueles que dizem combater e elegem dentre seus líderes as figuras mais ardilosas e sedentas a fazer tudo por poder sob o conveniente disfarce da causa social, essa sempre falsificada e reiteradamente utilizada até os tempos atuais para maquiar chantagens, usuras, fraudes, ilusionismos, estelionatos e corrupções de todos os tipos.
E então, esses ativistas tornam-se “pessoas fantoches”, como diria o psicólogo canadense Jordan Peterson. Ou simplesmente “idiotas-úteis” para o deleite do gênio maléfico revolucionário do italiano Antônio Gramsci. Ou se reduzem ao “imbecil coletivo”, conforme a expressão do polêmico pensador brasileiro Olavo de Carvalho, ou ainda, ao “homem-massa”, vide a alcunha dada pelo escritor e ensaísta espanhol José Ortega y Gasset.
Entrementes, o ativista social é o tolo-voluntarioso e pretensamente politizado que tenta sanar os problemas sociais sem olhar para dentro de si, virando massa de manobra dos poderes dominantes. É a pessoa que quer curar o mundo lá fora, consertar a sociedade, sem ter que mudar a si mesma. É aquele que deseja se empoderar, mas não quer se conhecer. Demoniza o sistema e a hierarquia, mas não reconhece a sua compulsão por poder, nem os seus próprios demônios íntimos e teme olhar o abismo obscuro dentro de si, a sua própria sombra e herança totalitária. Em sua inépcia, quer mudar a imagem do mundo lá fora sem percebê-la como um espelho, a semelhança de si mesmo, a sua própria projeção, indolência e cumplicidade débil e inconsciente.
Em vista disso, alguns ativistas lutam por posições de domínio, outros apenas pela mera participação e obtenção de alguma vantagem. A maioria contenta-se em ser seguidor, mas todos infiltram-se num coletivo, numa categoria social, entre os amantes de uma causa, fazem-se líderes ou liderados e pactuam na busca pelo poder ou acolhimento na salvaguarda do poder. Daí militarem sempre pela perigosa concentração de poder em algum “ente” que pretensamente os represente, e que na verdade, vai conseguir apenas dissimular mais ou menos essa representatividade, pois toda a causa e seus participantes partem de uma base corrompida, do indivíduo que não olha a própria sombra e prefere a ilusão coletiva.
O demagógico ativista não percebe que a sua obsessão é mais pelos jogos de poder do que pela causa em si, pois na verdade, essa última vem sendo usada apenas como pretexto para não ter que olhar a fundo dentro de si, em direção aos seus orgulhos feridos, às suas afetividades problemáticas, às suas sombras, seus dramas e ressentimentos ou malogros internos, e que não podem ser resolvidos diretamente por ideologia política e coletivo nenhum, sem o devido confronto, primordialmente, cada um consigo mesmo, no plano individual interior, autoconsciencializador. E esse só se desvela, verdade seja dita, no terápico empenho tema a tema, padrão por padrão, de cisão em cisão que nos defrontamos e curamos em nosso interior, transmudando nosso ser.
Portanto, a pessoa que deseja uma sociedade melhor, precisa primariamente e simultaneamente se melhorar no plano individual interno, confrontando a si mesma, reconhecendo o fato de que os planos vivenciais interior e exterior são coemergentes e interdependentes, o que implica em “autoconhecimento”.
É por esse intermédio que o individuo evolutivo pode se atentar, aperceber e distanciar cada vez mais dos extremos comportamentais de ressentimento entre o individuo individualista, cujo exemplo típico é o ególatra predador financeiro, e o indivíduo massa , exemplificado pelo vitimista achacador social, e que se digladiam nos jogos de poder que ensejam os mais variados graus de polarizações entre os papéis de vítima e algoz, tanto quanto, as suas peculiares manifestações e defraudações.
É desse modo, em se flagrando do próprio papel representado em meio a todos aqueles que projetam os seus dejetos e as suas sombras nos outros e nesse mundo, que o buscador sincero, ao contrário do mero ativista social, pode buscar sanar a sua própria falta de apercebimento no que se refere a suas vulnerabilidades afetivas, espirituais e existenciais, e mergulhar na profundidade de si com responsabilidade consciente, a fim de realmente promover algum tipo de evolução humana na sociedade, ao invés do falso progressismo que serve as sombras.
O verdadeiro progresso só se dá desde dentro, a partir de um tipo mais engajado e autêntico de individualismo solidário, interiorizado, cônscio, que é ciente do mal que o espreita e lhe sussurra tentações, projeções e descaminhos. Um individuo que prioriza a integridade e se confronta, a fim de tornar-se genuinamente capaz de contribuir para uma sociedade mais próspera e justa. Um individuo já mais calejado quanto aos pactos de falso empoderamento das soluções exteriores, cético quanto a ideologias, liberto de utopias e centrado na busca pela essência humana enquanto portal interno para a verdade, o sublime e o excelso: a vida divina, a vivência íntima direta do sagrado.
Essa conexão egrégia é uma experiência vital a ser vivenciada pela decodificação da linguagem sacra intuição-razão, ou coração-intelecto, inscrita nas tradições de sabedoria da humanidade, cuja mensagem se revela pela disciplina da autoconsciência que desfaz véus, clarifica submundos e nos conecta as esferas elevadas e a nossa fonte interna que nos permite trazer mais luz, retidão e amorosidade genuínas a esse mundo de obscuridades e falsidades, inclusive desmistificando àquelas que se alardeiam em nome das causas sociais.
Pois, tacitamente, não há solução para as desvalias desse mundo, nem solidariedade verdadeira, que não passe antes pela autoconsciência de cada indivíduo, a integração do mal que subjaz em seu interior, enquanto oposto psicológico natural do bem, e a libertação espiritual de todos os apegos as masmorras ideológicas e seus reinados de lama abissais. E então ir além, transfigurar e superar esses reinados sombrios edificados nas mais artificiosas miragens do materialismo decadente, esteja esse sorrateiramente infiltrado na religião, na ciência, na filosofia, na ideologia política ou até mesmo nas visões achatadas de espiritualidade adocicada, jubilosa e recreativa que se tornaram comuns na atualidade, junto a sua versão reduzida à correlações neurais ou fenomênicas no âmbito cientificista acadêmico.
Visões de espiritualidade essa que, diga-se de passagem, podem até ter seu valor principiante, mas que ainda mantém a verdadeira espiritualidade eclipsada, cativa ao seu lado sombrio e propensa aos ilusionismos de um materialismo espiritual acriançado, ufano, brando, e sem demora, novamente decaído.
Com efeito, se você almeja uma espiritualidade mais profunda, libertadora e genuína, então deve lembrar que “separar o trigo do joio” não é uma tarefa institucional, extrínseca ou que se possa delegar a alguma autoridade, comunidade ou a terceiros, mas sim, uma missão pessoal, uma escolha íntima, ou ainda, uma constelação de escolhas, a ser manifesta em sua relações habituais e sociais, e que necessariamente sobrevém da sua própria responsabilidade individual e existencial.
Os seus textos são magníficos, sempre muito enriquecedores.. parabéns
Obrigado Guilherme. Abraço!
Nossa…
Que texto é esse!?
Sem palavras
Agradeço por prestigiar Daniel. Abs!